Segunda-feira, Abril 28, 2008

Todos somos sacos. Alguns são sacos de plástico, frágeis, qualquer pesinho a mais os fura. O jeito é colocar sempre dois, três, quatro, pra aguentar o peso das coisas, quando na verdade o Sr.(a) Saco Plástico deveria saber o seu limite e só carregar aquilo que consegue, para não precisar de outros. Outros, são sacos de pano, aguentam bem mais que os sacos de plástico, mas a maioria dos líquidos lhes deixam manchas eternas e os arremedos de seus furos ficam bem feios e lhes distorcem a forma. Já outros, são sacolas de compras de shopping, têm um design bonito, agradável, vêm com uma marca estampada, mas depois que chegam em casa juntam-se ao montante de todas as outras de compras anteriores e ficam lá, sem propósito algum. Existem também aquelas sacolas de mercearia, ásperas ao toque. Duram bastante, são eficientes, mas desfiam, tornando-as cada vez mais difíceis de passar-lhes a mão com prazer.

Todos somos sacos. As alças rompem vez ou outra e se dá um nó para tentar seguir aguentando a carga, enchem-se e esvaziam-se a todo momento, são jogados no lixo com frequência, já que sempre terão outros disponíveis, e de repente, quando mais se precisa de um saco, não se acha nenhum.

Todos somos sacos. Às vezes percebe-se a evolução de um rompimento, e não se faz nada, esperando que não rompa. Às vezes se faz e se dá ao saco mais alguns dias de vida. Às vezes se rompe de repente, por falta de atenção, por falta de critérios e/ou por falta de noção. Outras vezes simplesmente voam em uma corrente de vento inesperada para nunca mais serem vistos.

Todos somos sacos. Dos pequenos, dos grandes, dos finos, dos grossos, dos bonitos, dos feios, dos maleáveis, dos inflexíveis, dos macios, dos ásperos, dos frágeis e dos resistentes. Todos nós nos tornamos sacos para os outros, que por sua vez se tornam sacos para nós. Não se dá importância ao porquê do saco ficar cada vez mais frágil ou cada vez mais áspero. Não se dá importância se estão felizes ou tristes, se ainda gostam de filmes espanhóis ou se preferem os suecos, se gostariam de nadar no mar à noite, se incomodam-se com o sol, se choram ao ver os telejornais. Não se dá importância se escutam alguma música que os fazem reviver um cheiro, talvez uma música dos Rolling Stones? Talvez um Frank Sinatra? E por quê. Não se dá importância se preferem amarelo ou laranja, se já dançaram sozinhos rodopiando pela casa ou pelas ruas, se já molharam o pão no café com leite ou se gostam de cebola. Não se dá importância se preferem letra corsiva ou de fôrma, Arial ou Times New Roman, normal, negrito ou itálico, minúsculas ou maiúsculas. Não se dá importância se têm sonhos, ambições, sentimentos paradoxais e que são seres complexos apenas procurando compreensão, aprendizado e colo. Qualquer importância disso, qualquer atenção quanto à isso, é ilusão. No fim, todos são apenas sacos. E eu sou um saco.

por Laila Razzo *

Segunda-feira, Abril 21, 2008

Donnie era um cara misterioso e fazia questão de ser assim. Ele pensava que o mistério dele era simplesmente não deixar as coisas claras, e mal sabia o que realmente atraía aquela garota que ele falou a primeira vez no final de fevereiro daquele ano que veio pra mudar tudo.

Giu era uma sonhadora, sempre foi e provavelmente sempre será, mesmo que possa acabar se escondendo através de palavras demais impossibilitando o mundo à compreendê-la. E mal ela sabia também o que viria a se tornar.

Donnie tinha uma propensão genuína que ele desconhecia pelos obstáculos que se impunha, todos os escudos contra as essencialidades da vida que ele via como perda de tempo e contextualizava como fraqueza. Mal ele sabia que seus escudos que eram estúpidos e se tornaria mais um desses que escrevem canções de amor e cartas enquanto tomam doses de whisky.

Giu sempre escreveu canções de amor, mas pra alguém invisível, com toda a imaturidade de uma criança e todas as indagações de um adulto. Ela nunca soube onde estaria se metendo e nem como sairia disso. Na verdade ela nunca pensou em saídas, ela sempre pensou nos começos e nos meios, fins eram ocasionalidades tristes que ela preferia não pensar a respeito. Mal ela sabia que fins realmente existem.

Donnie procurou estabelecer regras pra organizar esse sentimento estranho ao seu corpo dentro da sua vida que nunca realmente precisou de nada disso pra valer à pena. Todas as regras se quebraram, tudo se espatifou e ele se perdeu em uma imensidão de horizontes vazios. Mal ele sabia definir como isso veio a acontecer, e riu pra si mesmo o sorriso mais triste que alguém já deu.

Giu flutuava ou boiava. Não tinha o pé fincado em lugar algum, não via diferença entre céu e terra, ficava assim... rodopiando em uma atmosfera de dor e perguntas sem resposta. Mal ela sabia que o que a envenenava seria aquilo que a faria crescer.

Donnie não conseguia controlar suas palavras agressivas, era o mínimo que ele podia fazer depois de ter se decepcionado tanto. E ele sentia raiva de si mesmo por apesar de tudo sentir saudades do cheiro da pele dela, mesmo que ele não admita sentir raiva por coisas assim. Mal ele sabia que ela conhecia todos os seus defeitos e os aceitava não porque pensava que merecia como penitência, mas porque amava suas qualidades muito mais.

Giu chorava todos os dias e por tudo, talvez ela seja assim até hoje, eu não sei ao certo. Ela sabia que merecia ser feliz mas não conseguia levá-lo pro mesmo abismo que ela se encaminhava, não era justo, porque ele não merecia aquilo, ele merecia ser feliz. De impulsiva se fez inconsequente e cada segundo da sua vida em contagem regressiva vem a sensação de claustrofobia que ela adquiriu com o passar do tempo. Mal ela sabia que a vida seria tão dura.

Donnie de vez em quando lembra da sua gargalhada enquanto fuma um cigarro no terraço, e ela ecoa até ficar tão distante que some, assim, inexistente como a presença dela. Ele percebeu que continuava com seus métodos frios mas também não queria mudar, ele pensava que assim que tinha que ser e guardava dentro de si um fiapo de esperança de felicidade tão frágil de se olhar... mas inquebrável. Mal ele sabia que a vida não precisava ser tão dolorosa.

Giu não sabia mais no que pensar, no que acreditar, mas seguia em frente, sabe-se lá pra qual destino. Quem a olhava nos olhos podia perceber que ela tava lá no fundo, se arrastando, procurando uma brecha de luz. Ela se tornou uma pessoa ansiosa e sentia o coração pulsando cada vez mais acelerado. A agonia de não saber o que se espera a fazia esperar por coisas sem valor, como a hora que ela tivesse que sair de casa obrigada a enfrentar o mundo lá fora, simples coisas cotidianas. Mal ela sabia como era se sentir assim e que ele já havia passado por isso.

Donnie e Giu mal sabem de nada, mal sabem de tudo. Mal sabem como é sentar um de frente pro outro e jogar barriga inchada em um dia tedioso, mal sabem o que é nadar no mar juntos, mal sabem o que é pegar uma estrada só os dois, mal sabem o que é pegar um livro de receitas e tentar uma coisa nova, mal sabem quantas canções tristes de amor poderiam compôr e mal sabem ainda mais que nem toda canção de amor tem que ter uma ponta de tristeza.

Mas Donnie sabe o que é rir da risada dela, o que é ir pro aeroporto e esperar que ela chegue e ainda vestindo uma roupa imprópria, sabe o que é ter que aguentar toda aquela teimosia que ela insiste em não largar, sabe que ela segura o garfo de maneira engraçada, sabe que ela não cala a boca um segundo e quando se cala alguma coisa tá errada, sabe porquê ela gostou ou gostaria daquele filme, sabe que ela perde a vaidade de tempos em tempos, sabe que ela finge não estar com dor de cabeça pra poder fumar em paz, sabe como é dançar sem música com ela, sabe como ela é medrosa, sabe como ela pega no cabelo, sabe como fazer cócegas nela, sabe que ela é capaz de bater nele se estiver com raiva e falar mais palavrões do que ele já escutou na vida, sabe que ela fala alto demais e deixa ele com vergonha, sabe como é acordar e ver ela dormindo ao seu lado, sabe como é se entreolharem e não precisar de uma palavra pra compreenderem, sabe que ela bate o pé no chão quando quer alguma coisa e como ela fica um saco quando tá manhosa. Donnie sabe muito, sabe mais do que ela própria sobre si mesma.

E Giu sabe exatamente como a sobrancelha dele vai se mover, sabe que ele não ri pra fora quando tem uma crise de riso e pega tão forte no braço dela que fica a marca, sabe que a risada dele também muda de tempos em tempos e que ele já teve uma que mais parecia um porco, sabe que quando ele diz que tem uma surpresa pra ela é um porco rosa aliás, sabe como é sentir admiração só de ficar observando-o, sabe o que é ficar irritada com o silêncio dele, preso nos próprios pensamentos, sabe que ele fica com as costas encurvadas e ainda assim fica mandando ela ajeitar a postura, sabe o que é ter que ficar ouvindo mil reclamações e querer mandar ele pra algum lugar não muito prazeroso, sabe como é quando ele se empolga com algo e só consegue falar disso, sabe como ele se vicia em uma música e a faz escutar a mesma toda hora, sabe que ele não consegue largar o violão e sabendo que ela não aguenta mais ter que ser platéia, ele toca uma música da banda preferida dela, sabe qual é a sensação do melhor abraço do mundo, sabe que ele faz carinho como se tivesse acariciando um cachorro. Giu sabe muito também, e dá valor pra coisas que ele talvez nem imagine que ela lembra. Ela costuma pensar que o dia em que eles sairam só os dois pela primeira vez é feriado por causa deles, porque definitivamente é motivo de feriado, e fica imaginando se ele continua ruim de datas ou se lembrou que é hoje.


por Laila Razzo *

Quarta-feira, Abril 16, 2008

Saca só, você acorda às seis da manhã, que dia lindo, o sol brilha, os pássaros cantam, que sensação maravilhosa. Fast Backward 2x, erro de descrição. Play.

Saca só, você acorda às seis da manhã, puto, exatamente porque acordou às seis da manhã, os pássaros parecem estar todos mortos, o sol recém-nascido parece mais distante do que ele realmente está e uma chuva inesperada vem pra te fazer fumar de janela fechada. Que sensação maravilhosa. Fazer o quê? Assistir Harry Potter e a Ordem da Fênix! Tchurururulí! Fast Forward 8x: Assistindo o filme, às vezes rindo para a televisão, outras séria com cara de urubu. Não é necessária a descrição dos olhos cheios de lágrimas ou da careta vem-choro-aí. Fast Forward 20x. Play.

Marinete entra no meu quarto, ela tinha inventado de fazer meu prato e trazer pra mim. Pause. Zoom. Zoom. Zoom. Olhem esse prato. Olhem esse prato! Aquele morro bem ali é só arroz, a parte escurecida ali no meio foi uma idéia bem saudável de derramar toda aquela manteiga pós-passação-de-bife e lá estão os dois bifes bem passados, sendo que eu gosto de mal passado. Nem falei nada, ela fez com tanta boa vontade... Não acredita que não falei? Pois veja! Zoom. Zoom. Zoom. Zoom off. Play.

Ela me entrega o prato, finjo que é super normal comer um quilo de arroz e continuo assistindo Sonhos. É, comi pedreiramente, meus caros. Fast Forward 24 horas. Play.

Marinete decide me servir de novo. "Okay, ela tá gostando disso. Vamo lá, alter ego, aposta quanto como vai vir comida pra cinco?". Fast Forward 4x. Play.

Marinete adentra meu quarto. Pause. Zoom. Zoom. Zoom. Vê aquela coisa empapada e amarelada tomando conta do prato inteiro em forma de prato fundo ao contrário? Arroz com creme de leite, uns pózinhos e cogumelo. Vê o outro componente? São quatro pedaços de carne, meus caros, sim senhores. Zoom. Zoom. Zoom. Zoom off. Play.

"Marinete! O que que é isso?!". Dessa vez não deu. Ela começa a rir loucamente. Fast Forward 2x: Laila andando igual um cavalo pangaré até a cozinha, tira metade daquilo tudo. Play.

"Marinete, eu não posso comer isso tudo! Se eu deixasse no prato eu ainda era capaz de comer, mas não posso comer essa monstruosidade não, ia virar o próprio monstro!", ela ri mais ainda como se Santa Claus was coming to town e comenta com Leude: "Ela ainda vai voltar aqui pra repetir!". Fast Forward 4x: Laila volta ao seu quarto com a bandeijinha de doente e come seu prato agora decente, e não, não volta pra repetir. Play.

Fast Backward 23 horas. Play.

Assistindo Sonhos de Akira Kurosawa e pensando que se fosse eu ou um outro "qualquer um" que tivesse feito iam achar uma merda, empty, low quality, pointless etc, mas já que são os sonhos dele, tudo bem, belezura, amazing, terrific, breathtaking e todos os outros termos que esse povo coloca nos títulos das suas reviews pessoais. Fast Forward 20x. Play.

Tendo que criar em grupo um outdoor pra uma pizzaria que tem uma exclusividade empolgante! Queijo que não estica, queijo que faz crock. Errr. Não é empolgante, okay? Fast Forward 8x: Brainstorming, defendendo idéias, falando de pizza e de pizza e de pizza. Apresentando pra turma e falando de pizza, e porquê uma foto de uma pizza imensa no outdoor faria alguém passando de carro ficar com água na boca. Vontade de comer pizza. Muita vontade de comer pizza. Noção de que mamãe não ia querer me levar pra comer pizza. Indo pra locadora, escolhendo filmes, indo na conveniência ao lado atrás de pizza congelada. Não tendo. Play.

"Já que não tem pizza...", viro pro refrigerador de cervejas. Fast Forward 2x: Pego um saco de ruffles cebola e salsa, peço um maço de hollywood vermelho e um tridente de melancia, me sentindo em um desses filmes de viagem de estrada. Pago. Volto pro carro. Play.

"Cerveja, é?", mamãe pergunta em um tom irônico típico.
"Não tinha pizza, fazer o quê?", respondo como se fosse a coisa mais óbvia do mundo substituir uma pizza por duas Brahmas. Fast Forward 9 horas. Play.

Saca só, acordo às sete, sem entender o que se passa, sol escaldante me queimando e os pássaros ressuscitaram com poderes mutantes no volume do seu chilrear. Que sensação maravilhosa. Fast Forward 5 horas. Play.

Assistindo Rain Main. Pauso. Dou Zoom três vezes. Analiso uma foto na mão da atriz. Dou zoom quatro vezes pra ficar off. Dou play. Fast Forward 4x. Play.

Dou uma risada que não vou descrever, muito bizarra. Fast Forward 8x. Play.

Assistindo Rain Main. Olhos cheios de lágrima? De novo?! Fast Forward 8x: Termino de assistir o filme. Vou para o computador. Vontade de escrever sobre o meu dia-a-dia. Começo a escrever, escrevo o começo, paro, releio, vou em outra página, continuo a escrever, escrevo e escrevo, paro, implemento os 2x, 4x, 8x e afins nos outros Fast Backward e Fast Forward, escrevo mais, releio. Chegando ao tempo real. Play.

por Laila Razzo *

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Fazendo das tripas coração meus pulmões enchem-se. Não de vida, mas de parcelas de morte, e de forma incoerente me sinto viva, funcionando, podendo mexer braços e pernas, mesmo que doam e um enjôo ocasional me acometa. Queria eu ser uma dessas pessoas que vomitam facilmente, assim possivelmente tudo aliviaria, como pensei ontem. Mas foi só me entregar ao sono, a um universo paralelo do qual nem lembro quais esquinas percorri, não hoje, que desliguei. Esperar dormir até de manhã tem sido cotidiano, durmo no escuro, acordo no escuro, tenho visto todas as auroras e todos os crepúsculos. Só visto, não assistido, não mergulhado em plena contemplação por cores e formas, só existido enquanto o mundo completa meia voltas, terço de voltas, quarto de voltas, voltas completas, assim, meio incompleta.

Tristeza, felicidade, excitação, frustração... Nada disso realmente existe. Existe um passo atrás do outro, um passo à frente do outro, assim, no meio de campo, e uma receptividade anormal para todo o abstrato representado nisso ou naquilo que vêm a todo gás e grudam na extensão da minha existência como positivos atraem negativos e seu vice-versa. Minha mente é um buraco negro, não só pelas facetas do desconhecido e das indagações, mas por essa capacidade de sugar o que há de podre além do meu alcance físico para um labirinto de reciclagem e torná-lo belo, mesmo que impalpável e invisível. A meta talvez seja essa, torná-lo sólido, mas tamanha conversão resultaria em algumas perdas, porque seria como limitar algo grandioso e extenso a feitos que outros talvez compreendessem melhor como um trabalho bem executado.

A busca exaustiva pela individualidade dentro de um sistema em que cada organismo não é nada além de uma célula imperceptível formadora da massa homogênea relevante é confuso, de fato. Dividir o eu-eu do eu-sociedade é complexo, um não existe sem o outro, sendo complexo igualmente tornar-me eficiente ao gerar resultados visíveis que buscam espelhar meus pensamentos. Se intelecto é sinônimo de talento, ele não deveria ser desperdiçado, mas o mais lamentável geralmente ocorre: ver um talento tendo que descer o seu nível natural para satisfazer o que o eu-sociedade precisa de acordo com o que é dito aceitável e inaceitável pelo conceito de Bem Maior oriundo das limitações da maioria, mas que infelizmente é necessário para a organização e a ordem. Descer a um nível que outros conseguem executar com facilidade através de técnica e gestos mecânicos. Se tornar só mais um é um receio.

O talento é categorizado pela junção e sintonia da ação e do intelecto, e mesmo assim sendo, certas ações e formas palpáveis de demonstração de grandeza de algum tipo podem ser classificadas como não aceitáveis, e logo, polêmicas, causadoras de conturbações e atrito. Mas o mundo é feito disso, diferenças, e as pessoas não se permitem compreender e aceitar outras visões. Simples assim.

O desperdício é ainda maior do que parece, pois não se trata apenas das diferenças, mas como as pessoas se desenvolvem de acordo com padrões e não permitem nem a si mesmos de explorar seus verdadeiros talentos, seus verdadeiros "eus". A informação, o conhecimento, está ao alcance da maioria, mas o conformismo e a comodidade de viver em um mundo em que é possível estar do outro lado do oceano em algumas horas, se comunicar com qualquer pessoa que esteja em qualquer lugar em tempo real, com eletricidade, com calefação e ar condicionado, com geladeira, sistemas numéricos e máquinas para usos inimagináveis, ao invés de dar uma maior liberdade e tempo para o processo criativo acaba tornando-o praticamente extinto. A informação existe para ser copiada e decorada, não para ser uma influência e uma base, e os cultos são os que conhecem nomes ilustres em teorias pioneiras. Se fossem mesmo inteligentes chegariam à teorias parecidas por simplesmente deixarem-se pensar, e se de fato deixassem, poderiam desenvolvê-las em linhas inovadoras.

A ausência de tantas sensações essenciais em mim é pela incapacidade de fazer das minhas abstrações esse algo palpável para que eu me sinta alimentando o meu eu-sociedade. Palavras são de certa forma uma expressão compreensível para todos, capazes de gerar o algo palpável, mas apenas "de certa" forma, já que há uma necessidade da compreensão do leitor. E com elas eu vomito facilmente, ou melhor dizendo nessa ocasião: defeco. Porque mesmo que isso tudo pareça um vômito, por muitos verem um montante de frases sem nexo e idéias confusas, pra mim é o resultado de uma digestão. E fezes... bom, fezes são obras-primas.


por Laila Razzo *

Quinta-feira, Abril 10, 2008

Esboço sem formatação e o diabo à quatro.

EXT. CAFÉ - DIA

MARY


Eu acho isso tudo muito estranho. Como alguém que por um tempo é o centro da tua vida simplesmente se torna mais um estranho na multidão...

JANE


Eu acho que nunca deixei de amar ninguém. Eu não consigo.

MARY


Mas o sentimento muda.

JANE


Muda.

MARY


E tu só ainda gosta de pensar que é amor pra não desvalorizar o que passou.

JANE


Talvez...

MARY


Eu acho que sim. Porque a gente vive acreditando que amor tem que ser pra sempre. E a gente tem medo de enfrentar o fato de que possa ter acabado, porque aí não seria amor e a gente teria vivido uma ilusão.

JANE


Mas quem disse que amor não pode acabar?

MARY


É o que dizem, é como a gente cresce acreditando.

JANE


Então seria só eu mesma me enganando?

MARY


É... É aquele negócio, as coisas se tornam reais se tu acreditar nelas. Essa xícara só existe porque eu acredito que ela exista.

JANE


Mas tu consegue enxergar ela, tocar ela...

MARY


Mas eu poderia ignorar a existência da xícara se ela não me fosse útil ou importante. É uma coisa da percepção.

JANE


Tipo quando tu lê sobre, sei lá... Durkheim. E de repente ao teu redor aparecem várias coisas relacionadas a ele...

MARY


É... Elas sempre estiveram lá, tua percepção só era limitada pra perceber, não fazia parte do teu conhecimento, não te era útil...

JANE


Mas eu continuo acreditando que o amor só mudou em tipo.

MARY


Amor de homem, amor de amigo?

JANE


É, algo assim.

MARY


Amigo como? Tu fala com ele todo dia? Tu compartilha com ele várias coisas da tua vida atual? Ou tu só confia nele à distância e sente um carinho pelo que vocês já viveram ou pelo que ele é?

JANE


Hm... Confio e sinto um carinho.

MARY


Hmm... Foda-se, é amor. É tudo o que tu quer que seja, ou nada. Às vezes eu me canso de ter que rotular tudo, nem se eu engolisse um dicionário eu conseguiria rotular sentimentos e sensações de forma precisa.

JANE


Acho que é exatamente aí que as pessoas pecam... Nos rótulos.

MARY


Mas todo mundo precisa de uma informação exata sobre o que outra pessoa sente. Ninguém quer viver nada de maneira não recíproca.

JANE


Mas aí eles podem dar um mesmo nome para sentimentos diferentes. Até porque... Sentimentos não tem a ver com limitações? Não tem a ver com demonstração?

MARY


Não necessariamente, mas... Quem acredita em algo que não é provado?

JANE


Pra alguns demonstrar carinho é só querer saber se tu tá bem. Pra outros é dando um presente caro. Pra outros é tirando o próprio sangue pra molhar a boca e sair dando beijos no teu pára-brisas...

MARY


Então um relacionamento saudável seria aquele em que as formas de demonstração das duas partes fossem iguais?

JANE


Hmm... Não... Seria chato...

MARY


Seria...

MARY


A conta, s´il vous plait.

JANE


Tu ainda vai me matar de vergonha...




por Laila Razzo *

Quinta-feira, Abril 03, 2008

There are some things in your life you never expect to happen, but then they come and blow right on your face, like a drunk falling-on-the-floor friend who suddenly vomits on your right foot. Gross, but what can you do? Or you puke as well to make the whole story funnier later or you play responsible, hold your nausea and lead your friend somewhere safe. Both are pretty nice at the end of it all, isn't it? People tend to repeat the ancient (sometimes I wish I'd know who came up with it): look at the bright side. How many times it seems it doesn't really have one... To those times I might assure you: wait and see (another quote I'd like to know who said first), because it will show sometime if you're not a highly potential suicidal depressive and pessimist type of person who's got some pathological psychology-explains obsession of feeling guilty about everything all the time. Yes, I am a graduated Drama Queen, thank you for noticing.

There were so much I never knew... And I played the role of the mature person, full of theories, ethics, morale. Well, I do have cojones for some stuff though, I'm pretty sure about that, however for others... I'm this little frightened girl, who can't decide on being a child or growing up fully. Probably none of these are real at my age, being in the middle of it all is just empty. Time for big decisions, to build the foundations for the future! Sounds exciting, but it's quite depressing in fact. When you realise that even when you've established your limits you can break them easily (ask the cosmos why!) you feel like you're rubbish and to get your pieces back together... Well, it takes time. They say a broken vase is never the same when glued back together, it´s like saying scars are all ugly. Mate, that's what I call rubbish.

You see, I am this intense person, who can't get enough, who's got these theories about every little piece of crap and got fine and fair principles for that. Both sides mixed up ends up with...? Ten points to the one who gets it right! Three seconds! 1, 2, 3... Catastrophe. Disaster. You name all the synonyms. Sounds too dramatic? Hey, I warned you.

Finding a balance when you're impatient and impulsive and you've got no religion, nothing to hold on to, is not only let's say... difficult, it's challenging. And hey, I'll tell you something else about me, I get mad when something I want becomes a challenge, I might become a freak! And when it comes to my own behaviour, I get worse! Boo, I haven't made up my monster name. Is there already a Frankenstein around? Oh yeah, that Mary Shelley's one. Okay, you may call me It. I swear this one wasn´t on purpose, but there's also an It already, It Adams, huh? Let's get over with it. Haha. Got it?

I gotta say too I try not to walk on the lines just like Jack Nicholson in that movie. And I make up stupid challenges to myself like: "if I throw this paper ball right on that picture on the wall nothing bad will happen tonight". When I see that the picture is too far away I change for something closer and if I can't reach my target I give myself as many chances as I need to reach it. I make up things in my mind, okay? I live in a fantasy world most part of the time, I make up situations with people. I create movie dialogues in the shower acting as both characters, occasionaly more. With some I cry. I'm always singing songs that never existed, they come to me in lyrics and melody, flowing weirdly and usually I feel like I've found a true hit, but when I realise so it vanishes from my mind intirely. I have food seasons, nowadays I've got a milk shake situation going on. I rehearse what I am going to say in order not to put myself in a hearse instead, coffin and flowers checked on the list. I see art where others can't see and Oscar Wilde´s "all art is quite useless" makes me smile.

Can't explain what all this was for. Maybe a warning, maybe just another impulse, maybe nothing. Yeah... Nothing.

por Laila Razzo *

It´s gotta be constant. Every now and then.
The world is ahead, never behind.
Take the ride of your dreams and put emptiness aside.
Each detail is a new journey.

.profile.

Laila. Razzo é pseudosobrenome. 2, Dezembro, 1988. Nosce te ipsum eterno.

.another hobby.


FANLISTINGS

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