Domingo, Maio 25, 2008

Medo. Medo de te perder por tão pouco. Um segundo muda tudo. Todo o curso de uma vida. Se talvez tu tivesse saído de casa trinta segundos antes ou depois não aconteceria nada. Eu não teria que segurar a náusea de escutar a voz da minha irmã trêmula ao telefone dizendo "teu pai sofreu um acidente", nem ter os joelhos fraquejando fazendo eu me sentar sem eu mesma querer, nem não saber de onde saiu uma voz muito mais grossa e firme do que a minha de praxe ao perguntar vezes seguidas: "Cala a boca e me diz se ele tá bem. Ele tá bem? Ele tá BEM? ELE TÁ BEM? Me diz se ele tá bem". O silêncio do segundo entre a pergunta e a resposta pareceu minutos, meus ouvidos não captavam nada, era o vácuo, era um precipício, ecoando meus últimos pensamentos antes de receber a ligação: tu, trajando a melhor roupa, em um tapete vermelho, e eu rindo das tuas falhas tentativas de se comunicar em inglês, o verdadeiro Tarzan.

Conhecendo bem a minha família, todos desabariam, todos enlouqueceriam, perderiam o senso, dramatizariam. E eu também não sei de onde tirei qualquer força pra não chorar. Tudo o que eu sabia era que se deixasse derramar uma lágrima, outras mil cairiam, todos os meus medos e anseios tomariam conta de mim e eu perderia qualquer controle, qualquer chance de passar força e convicção de que tudo mesmo estava bem às pessoas ao meu redor.

Eu odeio hospitais, tu sabes disso. Eu odeio hospitais por como as pessoas viram hipocondríacas em hospitais, em como hospitais levam as pessoas a falarem de tragédias e em acreditar piamente que alguma coisa tem que está errada. Hospitais são ambientes pesados, não existem sorrisos, não existem esperanças, quando o essencial seria ter, sendo um ambiente de cura, de descanso, de recuperação do corpo e consequentemente espírito. E eu odiei tudo naquele hospital. Eu não aguentei ficar na sala de espera com toda aquela gente. Eu só conseguia ficar andando de um lado pro outro, do lado de fora, respirando fundo, procurando manter minha calma. "Tá tudo bem...".

Provavelmente foi estranho pra tantos me verem tão serena enquanto minha irmã se debulhava em lágrimas e expressões de preocupação que distorciam-lhe tanto a face que minha raiva aumentava só de estar perto. O sentimento errado, mas nisso não podemos escolher como nos sentir. Não sentia raiva dela, sentia raiva da situação. Não queria escutar ninguém falando, ninguém explicando as versões dos fatos, não queria ter que escutar as mil e uma histórias de pessoas que saíam de acidentes aparentemente bem e conscientes, mas com alguma hemorragia séria interna. Eu não precisava de nada daquilo, tudo já se passava na minha cabeça em um turbilhão. Graças a essa força, desconhecida por mim até aquele momento, eu fui capaz de suplantar todos os pensamentos negativos pela simples frase "ele tá bem", pelo querer que aquilo fosse verdade.

Me enfiaram dentro da UTI. Tua preocupação em me ver ali, te vendo com o rosto coberto de sangue seco, preocupado de eu estar preocupada, me atingiu, mas mais uma vez, não sei como consegui manter uma expressão de calma e falar tão tranquilamente que eu só tinha entrado pra te dar um beijo e ao nem estar ali ao teu lado por cinco segundos, sair.

Isso me lembrou como quando eu caí do cavalo, naquela viagem que fizemos, em cima de uma pedra e tudo o que tu fizeste foi rir com tranquilidade e falar pra eu levantar dizendo que não tinha acontecido nada, quando meu maior medo era ter perdido o movimento das pernas. Eu e tu somos dramáticos, e sim, sempre pensamos no pior: "não vou andar mais pro resto da vida" ou "meu cérebro deve estar à mostra mas eu não consigo sentir, afinal de contas, de onde vem tanto sangue?". Percebo agora que tudo o que eu quis te passar ficando só cinco segundos ao teu lado, sorrir e dizer que eu tinha ido lá só pra te dar um beijo e que eu sabia que tava tudo bem, foi pra te passar uma segurança que eu sabia que tu não tinha. Nós dois além de dramáticos, somos muito, muito medrosos. Pelo menos não sou eu que passo mal só em ver sangue.

Eu tinha passagens compradas pra uma viagem em algumas horas daquela espera torturante de algum resultado de novos exames, pensei em não ir mais, em ficar, pensei que ainda assim poderia ter alguma coisa que os médicos não haviam captado, e no meio da viagem eu recebesse um telefonema muito pior. Eu tive medo, eu tive muito medo. Eu tanto esperava por uma certeza que estava realmente tudo bem, quanto um tempo só pra mim, pra que eu pudesse chorar o que tava preso por um nó dolorido aqui dentro.

Quando falei contigo de novo tu ainda quis saber o que eu ainda fazia ali! Vê se pode... E tu me disse pra eu ir cuidar de arrumar minha mala. E eu ri e te fiz rir. Te fiz prometer que tu não seria teimoso e dormiria no hospital senão eu não ia embora. Tu me prometer e eu dizer "Tu tá mentindo" e tu responder "Eu to" e rirmos me aliviou mais do que chorar. "E não ri, porque tu não pode rir, senão vai doer tudo!". Não tem nada no mundo que eu goste mais de fazer contigo do que isso, rir dos nossos diálogos cômicos em momentos deveras inoportunos para comédias, mas que nós dois de alguma forma conseguimos encaixar um motivo pra uma risada.

Lembrar disso tudo e dos "o que poderia ter sido" me faz tremer por dentro. Mas, "ele tá bem". E eu vou rir muito da tua cara no tapete vermelho inglesando palavras em português e da tua empolgação infantil, assim como vou continuar com raiva da tua teimosia e da necessidade de dar pitacos em tudo que crio com essa mania de querer lapidar minhas pedras. Sim, nada vai mudar, e a isso eu não sei a quem agradecer, mas eu agradeço.

por Laila Razzo *

Sexta-feira, Maio 09, 2008

Eu estava me entretendo, rindo e esquecendo dos problemas quando de repente: lá estava aquele ser podre. Paro tudo para me enojar. Tanto me enojo que semicerro os olhos pensando na tamanha ousadia daquela coisa aparecer bem ali logo naquela hora. Quanta inconveniência! E vem aquela vontade de encher de murro, esganar, chutar e fazer uma sessão de sadismos escabrosos. Me aprumo e vou devagarinho em direção ao combate apanhando no meio do caminho a arma mais eficaz - combinando violência e alta porcentagem de serviço cumprido - para casos como esse. Eu bem sei que já perdi várias batalhas para criaturas como a tal, elas conseguem escapar com uma capacidade de The Flash e uma facilidade absurda de se meterem em qualquer buraco, muitas vezes até parecendo gnomos, que somem no ar em um piscar de olhos. Mas dessa vez não... Ah, mas não mesmo.

E eu fui chegando mais perto, com minha arma em mãos. Era capaz de escutar meu próprio coração batendo, o ruído da minha respiração não existia, a prendia não sei se por querer ou pelo nervosismo e excitação da situação. E quando penso que estava quase lá para um golpe certeiro e vitorioso, a porcaria não sai correndo? Sim, com aquelas patinhas asquerosas querendo ser Forrest Gump. Tenho pra mim que baratas são estrategistas de primeira, porque se você sai correndo atrás delas elas nunca vão em linha reta, elas procuram fazer o famoso "barata tonta" do jogo de queimado, que irônico. Assim como nos ensinam que se algum dia formos perseguidos por um jacaré em terra é só sair correndo em zigue-zague, já que o bicho é comprido e tem pernas muito curtas, o deixando atordoado e logo desistindo ou simplesmente tropeçando e tombando como um bêbado.

A maldita da barata subiu sambando no rodapé exatamente na esquina e se atirou de lá de cima, subiu de novo mais a frente em um passinho de valsa e se atirou de novo de volta ao chão, aposto como ela gritava "iupi" toda vez. Acabou indo desaparecer debaixo do meu puff! E agora? O que fazer? Música de suspense. Se eu levantasse o puff bem capaz de ela sair de lá toda escandalosa e acabar subindo no meu pé, o que me faria soltar algum som que demonstraria fraqueza. Pensei: "uma barata não me vencerá!" E o que fiz? Levantei apenas uma parte do puff, inclinando-o em direção ao meu corpo. Nada de barata. Será que ela havia saído pela fresta da porta? Esse pensamento me deu um leve alívio, pelo menos no meu quarto ela não estaria mais. Mas... não era isso que eu queria exatamente...

Inclinei o puff novamente, dessa vez em diagonal e nada de barata. Inclinei de novo, na outra diagonal, e espiei: nada de barata. Então eu saí chutando o puff igual uma louca, o que me daria impulso suficiente pra me esquivar caso ela viesse com gracinhas. E lá estava a nojentinha! Burra toda não fugiu quando pôde e veja só como essa magnífica estrategista funciona (e como sou boa conhecedora das mesmas): ela veio na minha direção! Ela não tem noção de tamanho e que os maiores geralmente comem os menores na cadeia alimentar? Não que eu quisesse comê-la, mas vocês entenderam o raciocínio, no fim dá tudo em morte. E como eu previa, consegui me impulsionar pra esquivar, segurei com tanta firmeza a lona do meu Converse que os nós dos meus dedos embraqueceram e PÁ! Foi um estrondo! E miolos de cucaracha sujaram o chão. Lá estava ela, imóvel, sem nenhum espasmo em suas antenas e tremeliques em suas patas. Enxuguei a gota de suor da minha testa com as costas da mão esquerda, dei uma olhada na sola do meu tênis melado de uma gosma amarelada (um impulso da mesma família do "olhar o papel depois que se limpa a bunda") e segui em frente com os preparativos.

Como um bom guerreiro muçulmano em meados do século XIX, não ia deixar o corpo de um inimigo para putrefação ao sol e sim enterrá-lo como enterraria meus companheiros de guerra. Tá, não foi por nenhum valor do tipo, foi mesmo porque uma barata morta é mais nojenta do que uma viva, então peguei três metros de papel higiênico para manusear a barata para o cesto de lixo, limpei o chão com um desses produtos que dizem fazer brilhar mais os vidros, já que não achei álcool, e voltei para o meu entretenimento de frente para a televisão satisfeitíssima por não ter perdido pra uma barata dessa vez, porque era só o que faltava! E também por ela não ser voadora, porquê aí sim seria um caso perdido. Agora tragam meu troféu!


por Laila Razzo *

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